Fantasma

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Ela carrega seus passos tortos e quebrados
Enquanto a lua não ilumina a sala,
Como se a chuva das nuvens negras de seus olhos
Apagasse o calor de sua alma.

É ela, que veste cinza, que corrói o aço e desmancha o diamante,
Se sua água limpasse as angústias
Ela não se sentiria tão sozinha,
Mas a água densa mancha todos os medos de covardia.

Como se fizesse alguma diferença ela sente as sombras cobrindo suas costas,
Os fantasmas não mais a assombram,
Suas assombrações são mentais e a cortam,
Fatiam todos seus sonhos e picotam segredos.

Transformando sua vontade em pó
Ela espera no lustre, a espreita para levá-la.
Como uma assassina com suas facas feitas de fraqueza,
Enquanto apenas fingimos que ela não existe.

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A Lona

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Quanto mais cinza o céu,
Mais antiquado o chão que eu piso,
Vazia a rua que eu ando,
Cansados os passos que eu dou.

Não tem um minuto que não colecione pequenas mortes,
Uma vida de longas prioridades,
Duras dores, curtos amores que me trocaram
Usaram, largaram, encontraram alguém melhor que eu.

Nessa rua vazia, nesse sábado que parece domingo,
Vida amarga, com gosto do café que eu fiz,
Mas não bebi, deixei na janela esperando você voltar
Esperando a noite pra poder me embriagar.

Vias

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Como ousa transformar poesia em pranto?
Quando meu travesseiro poderia virar um rio,
E a nascente seria o meu coração ferido e magoado
Embriagado de saudade, fadado a ressaca e ao abandono.

Eu não sou tua, eu não sou minha,
Não sei nem quem sou,
Cortada pelos pulsos as vias e veias,
Que levam ao seio dos meus sentimentos
Queria que fosse difícil fazer versos.

Entre choros e pesadelos
No meio da madrugada eu chamo seu nome,
Trocada por um momento,
Sou assombrada por um fim inteiro.

Escárnio e Zombaria

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A senhorita me perdoe,
Se entender, já que seu cérebro é movido a manivela,
As verdades que eu estou prestes a dizer
Transformo arte, poesia, coisa bonita em escárnio e zombaria.

Me desculpe, mas eu não gosto de você
E descobri que não sou minoria.
Sua alma sofre de anemia,
Anemia de personalidade.

Você não agrada meus olhos,
Você enoja minha boca,
Você enjoa meus ouvidos,
Você é desagradável para meu tato.

A senhorita que acha que é reina, mas tá no fundo da plebe
Com essa cara de boneca que caiu no chão e afundou o rosto,
É até bem feia, e bem falsa.
A verdade é que eu sempre fingi simpatia com você.

Se me permite nesses tempos modernos eu não compreendo,
Como alguém pode ser uma metamorfose ambulante tão genérica,
Fingindo que possui grandes dons e metida em mil grupos que nunca dizem que você realmente é
E colecionar tantos “likes”.

Mulher

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O que estava no platônico
No platônico ainda está.
Eu não te culpo pelo amor que nunca dei,
Eu não choro as dores que nunca houveram.

Palavras não vieram pra bater meu rosto,
Não vejo motivo pra me contorcer de agonia,
Então me contorço.
Eu não beijo a boca que nunca se aproximou.

Te desejo como nunca desejei,
Mesmo que você nem suspeite.
Me sinto pura, me sinto mulher, me sinto única.
Eu não peco pecados,
Não tenho choros marcados.

Sem Ar

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É estilhaço de vidro na minha garganta
Tudo aquilo que eu queria te dizer,
É amargo na minha língua
Todo o amor que eu queria sentir.

O quanto a fantasia machuca?
O quanto mais você me faria esperar?
E o silêncio? Tão pesado.
Moendo, sofrendo, remoendo.

Com cheiro de perfume de outra.
Amor só é bom se doer,
Mas paixão é pra sonhar.
Então pra quê me estraçalha?

Todas as promessas escritas na madrugada,
Se esvaem em água de chuva, de chuveiro.

De todas as mentiras que já vivi,
A sua foi a mais bonita, a mais azul,
A mais fodida.

E novamente vem aqui,
Em forma de choro, em forma de culpa,
Me lembrar como uma inquieta sombra,
De que eu não sou a mais linda.

Podre

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Tendo o sangue Goytacá
Sangue que não é podre,
Mas apodrece como o bom sangue velho derramado.

Velho em tempo e se renova a cada dia,
Do menino do mato ao menino do morro.
Nenhum dos dois conseguiu fugir da bala
Da pistola do português ao fuzil do tráfico.

Cai mais um, cai mais dois.
Cai filho de Tupã, cai filho de Ogum.
Cai nas mãos santas de quem catequizou,
De quem descaracterizou.

Cultura milenar reduzida a pó e carne morta,
Reduzida aos filhos de uma pátria dita inferior,
Dita pouco evoluída, dita fraca.
Reduzida a espelhos, estupros e assassinatos.

O valão carrega água suja,
De suor, de sangue, de bosta.

Cigana

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Madrugada de sábado,
Saio em disparada,
Caio em outra estrada.

Estações de rádio,
Freios de carro,
Maços de cigarro.

Sonho de fugir
Por não diminuir
A velocidade da minha vontade de gritar.

Fúria rebelde dos motores da alma,
Dos corações que aceleram as dores,
Do museu de meus amores.

Vivo rápido, vivo agora
Não tenho tempo de esperar mais uma hora.
Eu quero arriscar.