A introspectiva da Beira-Rio

O som era incessante. A rua não ficava quieta em nenhum segundo. Apesar de tudo, eu gostava da minha localização.
Quando você mora sozinha tudo é mais solitário. Os motores, as buzinas, o som, as pessoas, a rua, tudo funcionava para me convencer que eu não estava tão sozinha quanto me sentia.
Gostava de olhar de cima do prédio, ver as luzes das pontes que cruzavam o rio Paraíba do Sul. Eu gostava de luzes que brilhavam no escuro, como se eu pudesse ver minha própria vida nelas. Minha vida era como uma luz que brilhava no escuro, um ponto iluminado cercado de tanta escuridão, cercada de todas as dificuldades e medos.
Eu desligava todas as luzes do apartamento, ligava o rádio tocando minhas músicas preferidas e ficava lá.
Fechava os olhos e inalava todo aquele cheiro cinza, áspero, pesado e maravilhoso. Algumas pessoas costumavam a dizer que a cidade era atrasada. Eu discordava.
Sabia muito bem que tipo de sensação aquilo me causava.
Era sexta-feira e eu poderia ver o movimento intenso de pessoas voltando para suas casas depois de um dia pesado de trabalho e enquanto isso, em uma janela mais próxima, eu conseguia ver uma outra menina, provavelmente cinco anos mais jovem do que eu, se arrumando para sair.
Eu gostava dessas coisas, apesar de raramente sair. Eu passava a semana inteira animada para sair e quando a hora chegava a solidão do meu apartamento me chamava.
Pensei em andar um pouco, descer, comprar um saco de pipocas e subir de novo. Desanimei. Estava cansada, meus pés doíam de um dia cheio, meu namorado estava fora da cidade e tudo o que me restava era aquela barulheira incessante na rua.
E por mais que eu me afastasse, pegasse um copo de água na cozinha, aquela janela do meu quarto ainda me seduzia com suas cores. E eu continuava ali.
Eu continuava acompanhada pelo balanço das águas do rio. Eu continuava acompanhada pelas estrelas que brilhavam no céu e pelos faróis que moviam de um lado para o outro no chão.
E eu ainda pensava que estava sozinha?
Minha mãe morava num bairro distante do centro porque desde que meu pai morreu ela dizia detestar agitação.
Eu não sentia que estava num lugar agitado.
Aquilo para mim era calmaria.
Porque o conceito de calma e agitação era algo completamente pessoal. Para mim o calmo era aquilo ali, aquele barulho e aquela sensação de nunca estar sozinha.
Se eu ficava no silêncio escutava todo o barulho dentro de mim e enlouquecia.
E era por isso que eu amava a beira-rio.
Os barulhos de fora calavam a bagunça dentro de mim.

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