Onde anda você?

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Quando a noite cai, o vento esfria e umedece o ar eu acabo me lembrando da minha avó. Que quando a noite chegava e esse ar molhado também, ela dizia que era sereno e me escondia por de baixo de casacos e capuzes na esperança de me proteger de um resfriado. O nome “sereno” me trazia dois sentimentos: um é de que estava tarde, outro é que eu não deveria ligar para o tal frio que eu não sentia nem me afetava.
Se minha avó me visse agora eu acho que ela morreria do coração. Não estava nem um pouco protegida do sereno em meu vestido curto e sem mangas.
E era por essa linha de pensamento que eu seguia. Eu não tinha medo do frio, da noite, nem de ficar doente. Eu tinha medo mesmo era da solidão, do vazio e do escuro.
O que era irônico porque eu estava justamente enfrentando aquele medo. Aventurando-me pela noite atrás de lembranças de coisas que já foram. Ah e o sereno ia me pegar, oh sim, com toda certeza do mundo. Mas a solidão já havia me capturado e feito refém em seus domínios e não havia mais nada que eu temesse de verdade.
Então que se danem assassinos, ladrões e estupradores.
E quando já estava cansada de andar resolvi parar. Sentei-me à mesa de um bar. Não era um desses bares aleatórios, era um que eu conhecia de outros carnavais e quem sabe até de outras vidas.
Era só um desses tantos bares que eu frequentava com meu amor. Ex-amor, no caso. Era esse o provável fim, principalmente porque ele era de aquário e eu de escorpião.
Naquele ambiente estava tocando bossa nova, o que dava um ar até chique no lugar e me fazia me sentir como se estivesse nos anos 50.
Pedi cerveja. Eu gostava mais de uísque, mas só bebia essa bebida em casa. Eu tinha vergonha de beber esse tipo de coisa em público por ser mulher. Cheguei a conclusão que até as bebidas eram machistas, apesar de serem minhas melhores amigas.
Acendi um cigarro e por meio da fumaça densa comecei a observar as pessoas que entravam, saiam e estavam naquele lugar, dividindo o ar comigo.
E naquela hora desejei ter escrito mais poesias. Quem sabe o lírico das palavras, as rimas inúteis, que apesar de tudo eram bonitas não trouxessem nossos amores de volta? Palavras bem escolhidas em versos bem montados que com mais desses formariam estrofes épicas contando sobre dores momentâneas.
Ou não.
Observei a embalagem do cigarro que estava fumando. Eu era adepta dos filtros brancos, mas na minha última escolhi um desses de filtro vermelho. Meu ex-amor dizia que eram mais fortes que os que eu fumava. E naquela manhã, antes daquela noite melancólica, quando cheguei à padaria para comprar uma nova carteira acabei lembrando-me dele e levei aquele. Eu precisava de algo forte.
Deveria estar em casa lendo Bukowski e bebendo uísque, já que eu estava fazendo tanta questão de coisas fortes.
Respirei fundo e junto com meu ato o garçom chegou. Agradeci enquanto ele depositava o copo na minha frente. Xinguei o vento silenciosamente e bebi um gole da bebida amarga. Dei mais uma tragada e comecei a me sentir ridícula.
“Você parece uma mulher vulgar”, era como se eu ouvisse a minha mãe. Que criticava meus hábitos e manias desde meu aniversário de 18 anos.
E se eu tivesse admirado menos Zelda Fitzgerald talvez eu não fosse daquele jeito.
Mordi o lábio inferior e tive a impressão que meu ex-amor havia chegado naquele bar. Afastei o copo e abaixei o cigarro. Não poderia demonstrar que ainda mantinha as mesmas manias, apesar de ele não pensar da mesma maneira e eu saber perfeitamente daquilo. O homem vestia um chapéu panamá e tinha uma forma de andar muito similar, mas não era meu ex-amor.
Era um músico de passagem naquele lugar. Olhei para a mesa, puxando o copo para mais perto e desviando o olhar do homem, se ele percebesse aconteceria um grande mal entendido.
Fiquei querendo uma companhia. Desejei ter uma revista em mãos que poderia ser sobre qualquer assunto.
Olhei ao redor esperando encontrar meus antigos amigos de boemia.
Havia um rapaz acompanhado de uma loira atrás de mim. Com os cabelos castanho-claros jogados para o lado e usando os mesmos anéis que meu ex-amor usava. Meu coração me traía novamente. Segurei minha mão contra o peito. Seria naquela noite que eu o encontraria com outra? Mas já estava na hora de enfrentar a realidade, que ele já não me amava mais e só me restavam meus sonhos com poetas mortos.
Como eu já deveria esperar, não era ele. Era um homem qualquer. Um malandro e uma coitada caindo em sua conversa.
Suspirei.
Bebi um bom gole de vez. O copo já estava na metade e o cigarro também. Meus olhos miraram a televisão. Estava passando um desses programas que passam aos sábados, mas a TV estava no mudo. Torci os lábios, cogitei pagar a conta e ir embora. Olhei as horas em meu celular. Ainda estava “cedo”.
Talvez ainda tivesse um bom uísque me esperando em casa.
Olhei para o lado rapidamente para ter certeza que não estava perdendo nada.
Mais uma vez tive impressão que estava vendo meu ex-amor. Num homem com uma camisa muito parecida com uma que ele adorava usar, mas os cabelos eram loiros demais para serem os dele. Suspirei frustrada. Estava cansada. Chamei o garçom e pedi a conta.
Eu estava até vendo coisas.
Andando por bares, noites e boemias atrás de lembranças que já desfaleceram no vento frio da noite, no sereno.
Meu ex-amor estava por algum lugar naquela cidade, talvez num outro bairro para fugir das mesmas recordações que eu parecia estar correndo atrás.
O garçom me deu a conta e eu paguei o que devia. Levantei-me.
Quis ter algo em mãos, mas desisti.
Senti saudades de meus bons e velhos filtros brancos.
Resolvi dar a carteira de cigarro para o garçom e ele me disse que não fumava. Dei de ombros, sorri e mandei para dar para alguém que fumava, ele agradeceu e disse que deixaria com o dono do bar. Estava cansada de justificativas que nunca dava.
Pus meus pés pra fora do lugar sendo acariciada pelo sereno.
Era hora de voltar para mim.

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